24 de fev. de 2026

Eu poderia não estar aqui ‏

(Esse é um texto diferente do que costumo escrever aqui.)

Eu poderia não estar aqui.

Por muito tempo guardei uma experiência que mudou completamente a forma como eu vejo a vida e a morte.
Só recentemente senti que conseguia colocar em palavras sem distorcer o que vivi.

Esse texto é sobre ter estado perto de atravessar e ter voltado.
E sobre como depois disso, a vida comum nunca mais foi comum.

Talvez alguém precise ler isso hoje.
Talvez seja só o meu jeito de honrar o fato de ainda estar aqui.


Quem já esteve perto da morte, costuma amar a vida de um jeito menos ingênuo e mais consciente.
Não porque tudo é lindo. Mas porque é.

Existe um imaginário coletivo de que morrer seria pânico e ruptura, mas na minha experiência foi o oposto e me ensinou muita coisa.

Na minha Experiência de Quase-Morte (EQM), senti como se estivesse atravessando para um outro lado e o perigo não era dor, era entrega. Eu tive que lutar muito para não me entregar totalmente.

É como estar com muita sede e beber um copo grande de água muito gelada.
Você não quer parar em um só gole, você quer continuar até o fim.
Seguir a corrente invisível.

Era isso: uma saciedade absoluta. Completa. Sem perguntas.
Mesmo sem saber o que existia depois.

E é isso que assusta. O fato de que eu poderia ter ido.
Por sorte (ou por instinto ou apego ou por algo que ainda me ligava aqui) eu não me dissolvi.
Eu consegui me brecar e voltei.

E voltar é uma coisa estranha quando você quase tocou o outro lado.
Parece que tudo fica mais nítido e você consegue enxergar sem filtros e com uma sensibilidade extrema.

Mas é minha vida e eu estou grata por estar aqui hoje.

Já houve um tempo em que eu não queria estar aqui.
Passei anos anestesiada, sem direção e eu funcionava, mas não habitava em nada.

Quando vivi essa espécie de morte do ego, algo se reorganizou.
E a resposta que eu tanto procurava não estava em grandes revelações, nem em êxtases, nem em algum além.
Ela estava nas coisas simples, mas não no sentido clichê.
Simples como presença. Como perceber.
Como estar.

O que eu buscava como algo maior estava no menor: na pequenas coisas do cotidiano,
na vida comum que respira, no fato cru de existir antes de qualquer significado

E outra coisa,
As pessoas descrevem Deus como um homem sentado num trono, observando e julgando.
Mas isso sempre me pareceu pequeno demais para o que senti.

Se existe algo que mereça esse nome, não está acima.
Está em tudo.

Deus está nas coisas bonitas que acontecem no meio do dia comum.
Não como uma entidade separada, mas como a própria vida acontecendo.

Eu já estive perto de não estar aqui.

E talvez por isso, hoje, eu esteja.

> > Aproveite o agora. Seja presente.

   ‏                                                                                𖦹‏


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